Sexo Forte: Rainha Elizabeth II

Em tempos de heroínas de collant e super poderes, o empoderamento feminino nunca esteve tão em alta. Com fortes personagens femininos enriquecendo a literatura, como Emma Bovary (“Madame Bovary” de G. Flaubert), Capitu (“Dom Casmurro”, de Machado de Assis) e Daenerys Targaryen (“A Guerra dos Tronos”, de G. R. R. Martin), até inesquecíveis heroínas e carismáticas vilãs marcando presença na cultura pop, muitas dessas personagens acabam ofuscando o cenário com seus grandes feitos e atitudes de respeito. Mas muitas dessas personagens marcantes são figuras que realmente existem.

É o caso da rainha Elizabeth II, da Dinastia Windsor.

Esta, porém é uma heroína bem diferente das que estamos acostumadas a ver por aí. Filha do notório rei George VI (o famoso rei gago do filme “O Discurso do Rei”), Elizabeth Alexandra Mary Windsor literalmente nasceu em berço de ouro, e carregou desde sempre o fardo de se tornar rainha após seu pai (visto que ela era a filha mais velha, ou seja, a próxima na linha de sucessão ao trono). Mas para ela isto era muito mais que uma obrigatoriedade real, era uma responsabilidade que carregaria com grandiosidade, austeridade, imponência e uma magnitude conferida por alguém cuja nobreza de espírito só poderia ser encontrada numa Windsor.

À primeira vista, Elizabeth II não parece ser uma pessoa muito empolgante. Para nós, que estamos de fora e que nos acostumamos a encará-la meramente como uma vovozinha simpática, é difícil imaginá-la como uma das mulheres mais poderosas da atualidade, que deixou sua marca em vários importantes episódios da história do século XX.

Sim, meninas! Não se deixem enganar pelos aristocráticos vestidos, joias caríssimas e os inúmeros Welsh Corgis que sempre a acompanham. A rainha Elizabeth é uma verdadeira badass de primeira!

 

Entendendo a Constituição Inglesa

Para falarmos desta ilustre rainha, primeiramente temos que entender um pouco da constituição inglesa. Embora muitos pensem que o cargo de monarca seja apenas cerimonial, há muito mais na rainha do que as joias da coroa. É um princípio tão importante e infindo que, sem ele, o Reino Unido não funcionaria como funciona hoje, visto que a monarquia e, precisamente a própria rainha, desempenham um fundamental papel constitucional da Inglaterra.

Ao contrário da maioria das monarquias constitucionais, o que torna o Reino Unido um caso sui generis é que o país não possui uma constituição propriamente formal, ou seja, ao invés de um só documento constitucional rígido (como funciona nos EUA, no Brasil e praticamente todos os outros países do mundo), quatro fontes de entendimento constitucional são adotadas:

  • Common Law: leis baseadas na tradição e nas decisões tomadas anteriormente por juízes e cortes de justiça;
  • Statute Law: leis estabelecidas para legislar pontos importantes que possam contrariar a Common Law ou que precisem de uma legislação mais rígida;
  • Convenções parlamentares: tratam do funcionamento do parlamento;
  • Works of Authority: uma coleção de obras fundamentais para o entendimento das leis britânicas, incluindo famosa Constituição Inglesa de Bagehot.

 

Como não poderia deixar de ser, todas essas quatro fontes de poder são intimamente e intrinsicamente ligadas à figura do soberano, no caso a rainha. Não é à toa que seu pai George VI exigia que Elizabeth passasse toda a sua infância estudando esses fundamentos que norteiam a monarquia inglesa.

 

O Poder de Elizabeth Windsor

Na manhã de 2 de junho de 1953, 27 milhões de britânicos assistiam em júbilo (pela primeira vez em televisão) a coroação de uma nova rainha na Abadia de Westminster. Os jornais anunciavam o começo de um novo período elisabetano. 65 anos depois podemos, os fatos acontecidos nos 23.229 dias de reinado de Elizabeth II têm sido muito dinâmicos e diversos para se traduzirem em uma só palavra se não “excelência”.

Coroada aos 26 anos e casada com o Duque de Edimburgo (ontem completaram 70 anos de casados), a jovem rainha no início de seu reinado se via num delicado jogo entre a abertura às pessoas e o distanciamento. Mas logo percebeu que este foi apenas outro terreno que acabou dominando. Na década de 1990 compreendeu que, nos novos tempos, não era uma verdade absoluta aquilo que escreveu Walter Bagehot em 1867 de que, para preservar uma monarquia constitucional, “não se deve permitir que a luz do dia entre na magia”. Com a trágica morte de Lady Diana (então casada com seu filho, o príncipe de Gales), viu sua nação mergulhar em luto profundo e deixou a luz do dia entrar na privacidade da família real.

A negativa inicial da rainha a fazer uma declaração pública afastou-a de seu povo. Mas retificou e recuperou o favor de uma sociedade que, hoje, ainda mantém com três gerações de herdeiros diretos vivos.

Mas gosto de pensar que seu silêncio não tenha sido nenhum demérito de sua parte, mas sim uma notável classe que está embutido em seu caráter nobre. Como o costume de adornar com epítetos os nomes dos monarcas, Elizabeth Windsor poderia facilmente passar à história como Elizabeth, a Silenciosa. E essa, provavelmente, terá sido sua principal virtude. É disso que se trata em uma monarquia constitucional. O trabalho do monarca é unir e aportar estabilidade com toda a classe e austeridade que lhe cabe.

A rainha Elizabeth II se sentou no trono de uma potência imperial e hoje é a chefa de Estado de uma próspera nação, com instituições sólidas e peso internacional – é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas e do G-7– consideravelmente alto para seu tamanho relativamente pequeno em termos de território e população.

Se o mundo e o país mudaram dramaticamente nesses 65 anos, a própria instituição monárquica não ficou para trás. Elizabeth Windsor teve de assistir às erráticas tentativas de seus descendentes de conciliar as estritas tradições da instituição com os costumes da vida moderna. Viu de perto os horrores da 2ª Grande Guerra que seu pai enfrentou, acalentou a população de Londres durante o Grande Nevoeiro de 1952, passou pelo luto de sua nora enfrentando a cruel mídia e sobreviveu ao Swinging London na década de 60 e ao punk, estampando as capas do single God Save The Queen, do Sex Pistols. Mas hoje o punk está morto e Elizabeth ainda reina, com seus 91 anos de poderio e exemplar liderança.

Mãe, esposa e líder de uma nação, Elizabeth II é um perfeito exemplo de classe e postura, nobreza e coragem, paciência e compreensão, dedicação e responsabilidade. Uma mulher muito a frente de seu tempo que sobreviveu a todas as adversidades que a vida lhe impôs e que para sempre será lembrada como uma silenciosa heroína dentre muitas outras grandes mulheres ao longo da história e um verdadeiro símbolo do poder feminino. God save the Queen!

 

Não conheço nenhuma fórmula única para o sucesso. Mas ao longo dos anos, tenho observado que alguns atributos de liderança são universais e são muitas vezes sobre encontrar maneiras de encorajar as pessoas a conjugarem os seus esforços, talentos, ideias, entusiasmo e inspiração para trabalharem juntas.”

– Elizabeth Alexandra Mary Windsor, Rainha do Reino Unido